
Um dos muitos desafios do meu terapeuta ao longo destes anos foi me convencer de que se uma pessoa não está pensando em mim, não quer dizer que não me ame. Ou que eu não deixarei de existir, caso todos os olhares não se voltem pra mim quando eu entrar. É preciso saber dividir o palco, pois manter a platéia atenta em tempo integral é excessivamente desgastante para qualquer um. Depois de anos de análise, sigo tentando deixar que os outros sejam protagonistas, sem que isso me tire de cena. Porém, ainda vacilo e, muitas vezes, sinto como se fosse desaparecer do universo quando, por alguma razão, fico fora de foco.
Esta noite saí com o primeiro homem com quem dividi minha vida. Isso foi há muito tempo. Já tivemos outras histórias depois da separação. Filhos com outras pessoas, inclusive. Mas ficou entre nós uma cumplicidade, um vínculo forte. Uma intimidade que permite o silêncio, que ignora a passagem dos anos. Somos amigos, não há dúvida.
Quando nos conhecemos, eu tinha vinte dois anos. Estávamos recém formados. Ele era mais velho, morava sozinho, fazia músicas e já havia iniciado uma carreira. Gostou de mim primeiro e insistiu. Muito. Eu demorei um pouco pra ceder. Apesar de sentir um encantamento pelo universo desconhecido que me apresentava, era diferente de todos os homens que já haviam passado pela minha vida. Mas logo estávamos juntos e pouco tempo depois, devidamente casados. Ele ouvia minhas histórias e compreendia meu ritmo, sempre acelerado. Era meu decodificador particular. E quando algo me apertava o peito, era o pulsar do seu coração que me fazia dormir. Foram muitas as noites em que adormeci assim, com o ouvido colado naquele peito que parecia grande o suficiente para me acolher inteira.
Mesmo depois de separados, nunca perdemos totalmente o contato, mas nos últimos meses estamos mais próximos. Sempre me senti especial perto dele, talvez não houvesse mais paixão, mas tinha a certeza de que se trocássemos olhares e beijos, o amor voltaria. Mas o tempo passou e não existe como reescrever a história. Não vejo mais o mesmo carinho no seu toque. Talvez fique até um pouco entediado com minhas conversas.
Meu primeiro marido falava que eu tinha uma alegria necessária. Era minha marca, minha beleza. A dureza da vida me roubou um pouco a leveza e as gargalhadas. Tenho medo de ter perdido também o encanto. Essa noite ele falou de outras mulheres e novas conquistas. Ouviu minhas histórias, mas parecia bem distante. De repente o palco escureceu e tive medo de sumir. Mas não aconteceu. Continuo por aqui, um pouco menos excitada com a existência, mas em paz com as minhas imperfeições e cada vez mais convencida que a passagem do Nando pela minha vida, me vez uma pessoa melhor.
