quinta-feira, 28 de julho de 2011

Pedra Afiada


Adquiri meu gosto por trilhas na Guarda do Embaú, em Santa Catarina. Foi em um verão que decidimos passar 30 dias por lá. Eu e minha amiga Fernanda. Estávamos no início da década de 90. A praia era reduto de surfistas e se resumia a algumas poucas casinhas de pescadores, meia dúzia de modestas pousadas e uma natureza exuberante. Alugamos um quarto que ficava na pousada da Tia Marli, bem no centrinho. Logo na primeira semana conhecemos dois paulistas. Um deles ficaria nas nossas vidas por muitos anos. Mas isso é uma outra história.

Nenhuma de nós duas surfava, ou praticava qualquer outro esporte náutico. Assim, não havia muito o que fazer na Guarda daquela época se não ir a praia durante o dia e no bar da Candinha a noite. Para piorar um pouco, choveu muito naquele ano. O que acabava definitivamente com um dos programas. Deste tédio nasceu a primeira trilha. A Pedra do Urubu. Depois descobrimos uma cachoeira que havia do outro lado da BR 101.Um pouco mais tarde a trilha que leva da Guarda até a Pinheira. Então as trilhas da Ferrugem pro Rosa, passando pela Vermelha e Ouvidor. Meu filho nasceu alguns anos depois e passou a me acompanhar.

Esta semana fomos para Praia Grande, na região dos Canyons. Nos hospedamos em um lugar incrível: chama-se Refúgio Ecológico Pedra Afiada. Fica na parte de baixo do canyon Malacara, cercada da Mata Atlântica. A paisagem é de tirar o fôlego e as pessoas encantadoras. Fizemos muitas trilhas, colocanos o pé no barro junto com gente de todo lugar e todas as idades. É muito legal como as pessoas se revelam durante uma trilha na mata ou no leito de um rio cheio de pedras. Não há como se esconder por muito tempo. Logo aparece um momento onde você é desafiado e se expõe.

Depois de quatro dias de café fresquinho, cheiro de mato pela manhã e todas as estrelas do céu a noite, chegou a hora de partir. Entramos no carro em silêncio. Mal havíamos saído e o João Pedro me disse: - Mãe, já tô com saudades. Eu também estava. Dividir estes momentos com o meu filho me ajuda a prosseguir na trilha que escolhi.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Ebadi



Fui a conferência do Fronteiras do Pensamento nesta segunda-feira pronta pra mexer em um assunto que me ativa demais. Gênero. Sei que Shirin Ebadi é muito mais do que uma feminista de plantão e que isso é quase uma heresia. Mas não posso deixar de me emocionar com o fato de uma mulher que não tem mais de 1 metro e meio de altura ter desafiado uma das ditaduras religiosas mais radicais do mundo. Refiro-me a um país onde ainda se aplicam a mulheres sentenças de morte por apedrejamento. Onde, de acordo com as leis vigentes, o valor da vida de uma mulher é metade do valor da vida de um homem. A maior idade feminina é aos 9 anos, enquanto a masculina é aos 15.

Ebadi fala em farsi iraniano, pausadamente, sem muita emoção na hora do discurso. O peso da luta que carrega esteve no palco esta noite. Ela fez contato com o público. Moderadamente, mas fez. Foi agradável e devolveu a boa recepção, chegando até a descontrair em alguns momentos na hora dos questionamentos.

Quando perguntaram a grande pequena iraniana sobre a ocidentalização do mundo ( ela vive hoje na Inglaterra como exilada e mantém relações com os Estados Unidos) respondeu. O que vocês chamam de ocidentalização? Falo de DIREITOS HUMANOS e não de McDonald's ou Coca Cola. Falo de padrões mundiais pra definir a vida.

De uma mulher que fez bonito hoje para outra que decepcionou geral.
A ministra Maria do Rosário tentou fazer política na abertura da conferência . Pior que isso, tentou se explicar em nome do Governo pelo fato da presidente Dilma Rousseff não te recebido pessoalmente Ebadi no Planalto. Pelo menos foi o que pareceu o discurso inflamado que ela entoou no palco do Fronteiras, deixando até o apresentador da noite, jornalista Luiz Antônio Araújo, confuso. Depois de uns 15 minutos de ladainha alguém da platéia gritou “CHEGA!” e todos aplaudiram demonstrando que já era hora de encerrar. Ficou feio.

terça-feira, 24 de maio de 2011

O tempo é agora


Assisti o Frederic Jameson ontem na abertura do Fronteiras do Pensamento. Entre as muitas questões que ele colocou à platéia atenta, no Salão de Atos da UFRGS, uma foi comigo pra casa.

Nunca uma geração esteve tão ligada ao presente, não há mais vanguardas e utopias. O passado desapareceu e o corpo se tonou a instância mais importante e durável para o indivíduo.

É o efêmero, que pautou o discurso de Jameson e deverá estar presente em muitas palestras que assistiremos no Fronteiras este ano. Iniciamos a viagem de reflexões sobre a socidade do ritmo, do líquido, e do anônimo.

Costumo discordar das pessoas que cultuam o passado em demasia, não gosto de avaliar as relações desta geração com os referencias das que passaram. Não acho que estamos piores, nem melhores, apenas andamos.

O que me pareceu mais claro ainda, depois de ouvir Jameson, é que realmente vivemos um momento de alguns descompassos. Como ele disse, enquanto na política ainda queremos conquistar territórios, para o indivíduo não importa mais o espaço, o tempo é agora. É preciso muitos ajustes...

domingo, 5 de setembro de 2010

O segredo dos teus olhos


Um dos muitos desafios do meu terapeuta ao longo destes anos foi me convencer de que se uma pessoa não está pensando em mim, não quer dizer que não me ame. Ou que eu não deixarei de existir, caso todos os olhares não se voltem pra mim quando eu entrar. É preciso saber dividir o palco, pois manter a platéia atenta em tempo integral é excessivamente desgastante para qualquer um. Depois de anos de análise, sigo tentando deixar que os outros sejam protagonistas, sem que isso me tire de cena. Porém, ainda vacilo e, muitas vezes, sinto como se fosse desaparecer do universo quando, por alguma razão, fico fora de foco.
Esta noite saí com o primeiro homem com quem dividi minha vida. Isso foi há muito tempo. Já tivemos outras histórias depois da separação. Filhos com outras pessoas, inclusive. Mas ficou entre nós uma cumplicidade, um vínculo forte. Uma intimidade que permite o silêncio, que ignora a passagem dos anos. Somos amigos, não há dúvida.
Quando nos conhecemos, eu tinha vinte dois anos. Estávamos recém formados. Ele era mais velho, morava sozinho, fazia músicas e já havia iniciado uma carreira. Gostou de mim primeiro e insistiu. Muito. Eu demorei um pouco pra ceder. Apesar de sentir um encantamento pelo universo desconhecido que me apresentava, era diferente de todos os homens que já haviam passado pela minha vida. Mas logo estávamos juntos e pouco tempo depois, devidamente casados. Ele ouvia minhas histórias e compreendia meu ritmo, sempre acelerado. Era meu decodificador particular. E quando algo me apertava o peito, era o pulsar do seu coração que me fazia dormir. Foram muitas as noites em que adormeci assim, com o ouvido colado naquele peito que parecia grande o suficiente para me acolher inteira.
Mesmo depois de separados, nunca perdemos totalmente o contato, mas nos últimos meses estamos mais próximos. Sempre me senti especial perto dele, talvez não houvesse mais paixão, mas tinha a certeza de que se trocássemos olhares e beijos, o amor voltaria. Mas o tempo passou e não existe como reescrever a história. Não vejo mais o mesmo carinho no seu toque. Talvez fique até um pouco entediado com minhas conversas.
Meu primeiro marido falava que eu tinha uma alegria necessária. Era minha marca, minha beleza. A dureza da vida me roubou um pouco a leveza e as gargalhadas. Tenho medo de ter perdido também o encanto. Essa noite ele falou de outras mulheres e novas conquistas. Ouviu minhas histórias, mas parecia bem distante. De repente o palco escureceu e tive medo de sumir. Mas não aconteceu. Continuo por aqui, um pouco menos excitada com a existência, mas em paz com as minhas imperfeições e cada vez mais convencida que a passagem do Nando pela minha vida, me vez uma pessoa melhor.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Longe de casa

Na palma da minha mão há um descaminho. Tento voltar, mas o tempo apagou a trilha.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

João



Já estou me preparando para a adolescência do meu filho há algum tempo. Ele tem 10 anos, mas desde bebê acha que sabe tudo, não aceita ajuda, sempre quer o contrário do que é proposto e é irônico, muito irônico. Uma vez diagnosticaram isso como transtorno opositor. A antiga teimosia. As vezes eu perco a paciência e grito, rogo pragas, descompenso geral. Então ele, com a maior calma, me diz: Ai, estressada.
Hoje pela manhã fomos ao psiquiatra, numa consulta familiar. Por alguma razão que não vem ao caso, o médico sugeriu que ele começasse a tomar refrigerante ligth, não havia problema para a saúde. De pronto ele contra-argumentou: - Não! Tem muito sal, aprendi isso na feira de ciências. O psiquiatra não contrariou, ao contrário de mim, é treinado pra isso. Vendo que não havia oponente, ele mesmo se corrigiu: - Se bem que eu não tenho pressão alta, então acho que o açúcar do refrigerante comum é mais prejudicial.
Assim é meu filho. Sabe aos 10 anos que o sal não é indicado para quem tem pressão alta, mas não faz os temas de casa e só vai tomar banho e escovar os dentes depois das mais terríveis ameaças.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Carpinejando

Ando apaixonada pelo Fabrício Carpinejar.
Tenho a impressão de que ele escreve pra mim, pois seus textos traduzem meus pensamentos.

"É a insistência que produz o amor, não o deslumbramento. Paixão à primeira vista não existe com brigadeiro ou com mulheres. Mas cheiro à primeira vista é imbatível. A química não costuma falhar, desde que tenha tempo para misturar os ingredientes". Carpirnejar, trecho da crônica Os olhos são coadjuvantes do olfato