domingo, 5 de setembro de 2010

O segredo dos teus olhos


Um dos muitos desafios do meu terapeuta ao longo destes anos foi me convencer de que se uma pessoa não está pensando em mim, não quer dizer que não me ame. Ou que eu não deixarei de existir, caso todos os olhares não se voltem pra mim quando eu entrar. É preciso saber dividir o palco, pois manter a platéia atenta em tempo integral é excessivamente desgastante para qualquer um. Depois de anos de análise, sigo tentando deixar que os outros sejam protagonistas, sem que isso me tire de cena. Porém, ainda vacilo e, muitas vezes, sinto como se fosse desaparecer do universo quando, por alguma razão, fico fora de foco.
Esta noite saí com o primeiro homem com quem dividi minha vida. Isso foi há muito tempo. Já tivemos outras histórias depois da separação. Filhos com outras pessoas, inclusive. Mas ficou entre nós uma cumplicidade, um vínculo forte. Uma intimidade que permite o silêncio, que ignora a passagem dos anos. Somos amigos, não há dúvida.
Quando nos conhecemos, eu tinha vinte dois anos. Estávamos recém formados. Ele era mais velho, morava sozinho, fazia músicas e já havia iniciado uma carreira. Gostou de mim primeiro e insistiu. Muito. Eu demorei um pouco pra ceder. Apesar de sentir um encantamento pelo universo desconhecido que me apresentava, era diferente de todos os homens que já haviam passado pela minha vida. Mas logo estávamos juntos e pouco tempo depois, devidamente casados. Ele ouvia minhas histórias e compreendia meu ritmo, sempre acelerado. Era meu decodificador particular. E quando algo me apertava o peito, era o pulsar do seu coração que me fazia dormir. Foram muitas as noites em que adormeci assim, com o ouvido colado naquele peito que parecia grande o suficiente para me acolher inteira.
Mesmo depois de separados, nunca perdemos totalmente o contato, mas nos últimos meses estamos mais próximos. Sempre me senti especial perto dele, talvez não houvesse mais paixão, mas tinha a certeza de que se trocássemos olhares e beijos, o amor voltaria. Mas o tempo passou e não existe como reescrever a história. Não vejo mais o mesmo carinho no seu toque. Talvez fique até um pouco entediado com minhas conversas.
Meu primeiro marido falava que eu tinha uma alegria necessária. Era minha marca, minha beleza. A dureza da vida me roubou um pouco a leveza e as gargalhadas. Tenho medo de ter perdido também o encanto. Essa noite ele falou de outras mulheres e novas conquistas. Ouviu minhas histórias, mas parecia bem distante. De repente o palco escureceu e tive medo de sumir. Mas não aconteceu. Continuo por aqui, um pouco menos excitada com a existência, mas em paz com as minhas imperfeições e cada vez mais convencida que a passagem do Nando pela minha vida, me vez uma pessoa melhor.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Longe de casa

Na palma da minha mão há um descaminho. Tento voltar, mas o tempo apagou a trilha.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

João



Já estou me preparando para a adolescência do meu filho há algum tempo. Ele tem 10 anos, mas desde bebê acha que sabe tudo, não aceita ajuda, sempre quer o contrário do que é proposto e é irônico, muito irônico. Uma vez diagnosticaram isso como transtorno opositor. A antiga teimosia. As vezes eu perco a paciência e grito, rogo pragas, descompenso geral. Então ele, com a maior calma, me diz: Ai, estressada.
Hoje pela manhã fomos ao psiquiatra, numa consulta familiar. Por alguma razão que não vem ao caso, o médico sugeriu que ele começasse a tomar refrigerante ligth, não havia problema para a saúde. De pronto ele contra-argumentou: - Não! Tem muito sal, aprendi isso na feira de ciências. O psiquiatra não contrariou, ao contrário de mim, é treinado pra isso. Vendo que não havia oponente, ele mesmo se corrigiu: - Se bem que eu não tenho pressão alta, então acho que o açúcar do refrigerante comum é mais prejudicial.
Assim é meu filho. Sabe aos 10 anos que o sal não é indicado para quem tem pressão alta, mas não faz os temas de casa e só vai tomar banho e escovar os dentes depois das mais terríveis ameaças.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Carpinejando

Ando apaixonada pelo Fabrício Carpinejar.
Tenho a impressão de que ele escreve pra mim, pois seus textos traduzem meus pensamentos.

"É a insistência que produz o amor, não o deslumbramento. Paixão à primeira vista não existe com brigadeiro ou com mulheres. Mas cheiro à primeira vista é imbatível. A química não costuma falhar, desde que tenha tempo para misturar os ingredientes". Carpirnejar, trecho da crônica Os olhos são coadjuvantes do olfato

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Meu namorado, da primeira vez



Lembro que a primeira vez que eu vi o meu namorado. Ele estava sentado no carro ao lado daquele por quem minhas pernas amoleciam só de olhar. Era o carona. Enquanto me observava com interesse, seu amigo loiro, que pilotava um Opala Comodoro azul como a cor dos olhos dele, me olhava apenas como uma menina fácil e apaixonada. Eu havia chegado recentemente à cidade e tinha poucos amigos.
Depois de muita insistência (minha, é claro) o dono do carro azul aceitou me namorar, principalmente porque a virgindade que eu carregava poderia vir a ser mais um troféu da sua coleção. Sentávamos no sofá da sala. Eu nervosa e ele entediado. Envolvimento com o sexo oposto não era novidade para ambos, mas eu jamais havia arriscado um namoro no sofá. Preferia mesmo os beijos descompromissados em festas escuras ou carros embaçados.Algumas vezes quando ele estava para chegar, a barriga me doía e eu tinha que me trancar no banheiro até ter disposição e coragem de recebê-lo na porta.
O fato é que eu ainda era virgem e estava disposta a acabar com aquilo, me entregando àquele homem azul que me fazia suar de tesão e chorar com suas ausências e traições.Meu namorado (que ainda era só o amigo do homem azul) tornou-se naqueles dias um grande aliado e acabou preferindo a minha companhia a do seu antigo parceiro de baladas.
Saíamos todos os dias e ríamos muito. De qualquer coisa. Sem motivo. Ele era moreno, magro e tinha olhos castanhos. Tocava piano e violão e me trazia músicas gravadas da Elis. Me buscava no Colégio e me levava as aulas de teatro. Freqüentava a minha casa e não se mostrava nem um pouco entediado, muito menos eu demonstrava qualquer nervosismo diante da sua presença. Eram leves e ensolarados aqueles dias, mesmo quando chovia.
Nas férias, uma amiga veio estar comigo e passamos a formar um trio. Logo de cara, a amiga percebeu alguma coisa entre nós, os maiores amigos do mundo, e avisou: - Vocês vão namorar!
Aquela fase em tom profético me fez gargalhar. Era impossível. Éramos amigos e, além do mais, eu ainda encontrava o homem azul que me dava alguns beijos roubados.
Dias depois da profecia beijei na boca meu maior amigo e fizemos juras de não amor. Mas já estávamos namorando e nos amávamos.
Meu primeiro namorado era amigo e amante. Umas das melhores pessoas que já conheci. Alguém de fundamental importância no meu crescimento. Esteve ao meu lado, sempre. Pena eu nunca ter conseguido dizer tudo isso a ele.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Running


Quem são essas pessoas que acordam sábado de manhã cedo e saem por ai, correndo para não chegar em lugar nenhum.? Em bandos, ou solitários, gastam o asfalto, marcam a areia, ou desfilam apressados pelas calçadas?

Parecem determinados, até felizes, com a tarefa imposta. Correr e correr.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Carta de amor

Dia 23 de fevereiro eu fiz 40 anos e estou me sentindo plena como há muito tempo não me sentia. É como se eu começasse, enfim, a ver beleza nas marcas que o tempo deixou no meu corpo e na minha vida. É mesmo possível ser feliz sem o pulsar da juventude, sem o ritmo frenético da vida aos 20. Demorei a acreditar nisso. Hoje posso falar com a sabedoria de quem já flertou com o perigo. Arriscou muito e perdeu algumas vezes. Tenho muitas histórias pra contar, memórias, amigos que foram e os ficaram pra sempre.Sempre fui voraz e devorei cada segundo da minha existência, por isso sofri intensamente minhas perdas e comemorei com paixão todas as vitórias.

Aos 40 não me agrada mais o efêmero. Blefar com a vida. Quero um amor mamífero, com sabor de aconchego. A paixão precisa virar amor, do contrário o prazer vira droga, com direito a repé e crise de abstinência. Neste instante, felicidade pra mim é sol no rosto, uma corrida pela manhã, programar uma viagem e conversar com gente interessante. Felicidade é amar alguém que possa me fazer uma pessoa melhor e me ajude - no futuro bem próximo - a decidir o horário que meu filho deve voltar pra casa nas suas primeiras investidas pela noite sempre insegura e perigosa.

Amor é sexo com intimidade e possibilidade de descobertas a dois.

Não resolvi me apaixonar por ti. Sabemos que isso não é coisa que se resolve. Gosto muito de falar contigo. De estar contigo. Te admiro cada vez mais. Já te disse isso muitas vezes. Acho que meu coração, que andava atrapalhado, serenou. Então eu te vi mais uma vez. Agora com os olhos de uma mulher.

É isso.
Um beijo