domingo, 28 de fevereiro de 2010

Meu namorado, da primeira vez



Lembro que a primeira vez que eu vi o meu namorado. Ele estava sentado no carro ao lado daquele por quem minhas pernas amoleciam só de olhar. Era o carona. Enquanto me observava com interesse, seu amigo loiro, que pilotava um Opala Comodoro azul como a cor dos olhos dele, me olhava apenas como uma menina fácil e apaixonada. Eu havia chegado recentemente à cidade e tinha poucos amigos.
Depois de muita insistência (minha, é claro) o dono do carro azul aceitou me namorar, principalmente porque a virgindade que eu carregava poderia vir a ser mais um troféu da sua coleção. Sentávamos no sofá da sala. Eu nervosa e ele entediado. Envolvimento com o sexo oposto não era novidade para ambos, mas eu jamais havia arriscado um namoro no sofá. Preferia mesmo os beijos descompromissados em festas escuras ou carros embaçados.Algumas vezes quando ele estava para chegar, a barriga me doía e eu tinha que me trancar no banheiro até ter disposição e coragem de recebê-lo na porta.
O fato é que eu ainda era virgem e estava disposta a acabar com aquilo, me entregando àquele homem azul que me fazia suar de tesão e chorar com suas ausências e traições.Meu namorado (que ainda era só o amigo do homem azul) tornou-se naqueles dias um grande aliado e acabou preferindo a minha companhia a do seu antigo parceiro de baladas.
Saíamos todos os dias e ríamos muito. De qualquer coisa. Sem motivo. Ele era moreno, magro e tinha olhos castanhos. Tocava piano e violão e me trazia músicas gravadas da Elis. Me buscava no Colégio e me levava as aulas de teatro. Freqüentava a minha casa e não se mostrava nem um pouco entediado, muito menos eu demonstrava qualquer nervosismo diante da sua presença. Eram leves e ensolarados aqueles dias, mesmo quando chovia.
Nas férias, uma amiga veio estar comigo e passamos a formar um trio. Logo de cara, a amiga percebeu alguma coisa entre nós, os maiores amigos do mundo, e avisou: - Vocês vão namorar!
Aquela fase em tom profético me fez gargalhar. Era impossível. Éramos amigos e, além do mais, eu ainda encontrava o homem azul que me dava alguns beijos roubados.
Dias depois da profecia beijei na boca meu maior amigo e fizemos juras de não amor. Mas já estávamos namorando e nos amávamos.
Meu primeiro namorado era amigo e amante. Umas das melhores pessoas que já conheci. Alguém de fundamental importância no meu crescimento. Esteve ao meu lado, sempre. Pena eu nunca ter conseguido dizer tudo isso a ele.