Já faz algum tempo que a editora deste caderno me convidou para que escrevesse sobre a relação com o bairro onde moro. Imediatamente o argumento para o texto me veio à mente, mas a aridez do tema escolhido adiou um pouco a encomenda.
Há oito anos e meio, assim que descobri que estava grávida, me mudei para o Menino Deus. Já troquei de apartamento, mas permaneci no bairro onde trabalho, faço ginástica, compras no supermercado, shopping. Posso dizer que boa parte de minha rotina acontece aqui.
Apesar de não faltar elementos para descrever os encantos do bairro, decidi abordar um assunto que muito me inquieta, principalmente quando o Minuano começa a soprar, avisando que o inverno será longo e rigoroso. Quero falar da miséria, talvez na sua versão mais cruel. De pessoas, que, para a maioria de nós, cidadãos socialmente incluídos, são anônimas e quase invisíveis. A não ser quando atrapalham o caminho, deitadas nas calçadas, ou nos abordam nas sinaleiras para pedir esmolas.
Uma pesquisa realizada pelo Laboratório de Observação Social da UFRGS e encomendada pela Fundação de Assistência Social e Cidadania identificou a existência de 1.203 adultos vivendo na rua em Porto Alegre. A maioria deles (41,3%) atribui sua situação a rupturas familiares. Os dados servirão para definição de políticas públicas, segundo as autoridades responsáveis.
Na esquina da Ipiranga com a Getúlio Vargas, a Sociedade Espírita Doutor Ramiro DÁvila serve um sopão para moradores de rua há mais de 50 anos. São mais de 300 pratos diariamente. A vizinhança reclama. Não gosta da multidão de maltrapilhos que se aglomera nas imediações esperando pela comida, tem medo de assaltos e das confusões que às vezes eles protagonizam.
Termino mais um dia de trabalho, pego o carro e ligo o ar para me aquecer enquanto percorro o curto percurso que me separa de casa. Em uma das esquinas o sinal está vermelho. Com os vidros fechados e o som ligado não escuto o que o menino diz quando se aproxima. Não é uma cena inédita, nem algo exclusivo do meu bairro, mas o dia está especialmente frio, e ele veste pouca roupa. São muitas as justificativas que tenho para não abrir o vidro e dar as moedas. Mas é com muita culpa que arranco quando o sinal finalmente abre.
A miséria e a exclusão social não são problemas só do meu bairro. Mas é aqui, nas ruas do Menino Deus, que eles se mostram todos os dias para mim e perguntam: afinal, o que eu estou fazendo para mudar isso?
(Texto publicado no ZH Menino Deus do dia 26 de junho de 2008)
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário