quarta-feira, 23 de abril de 2008

O tempo não pára

Sou de uma família de médicos. Quer dizer, formado, assim com diploma, são dois: meu irmão e minha cunhada. Mas isso é mero detalhe. Se considerarmos a área da saúde como um todo, temos ainda uma dentista. Dizem que os dentistas são os piores pacientes, pois eles não sabem, mas tem idéias... No caso da nossa dentista, posso dizer que ela sabe muito. De dentes. Por isso não fique muito tempo falando com ela se você não estiver com a dentadura em dia porque ela vai reparar. E o que é pior, poderá lhe dar uma dica.

Eu sou jornalista, mas como adepta e defensora ferrenha da psicoterapia como facilitadora da vida e da convivência entre as pessoas, considero-me especialista na área terapêutica. Por isso, diagnósticos ligados a distúrbios comportamentais ou de personalidade são a minha praia. Conheço um desajustado de longe. O que não significa que eu fuja deles.

Mas a chefe da equipe é mesmo a professora Sônia: minha mãe. Não é aconselhável tomar medicação alguma sem perguntar a opinião dela antes. Até porque ela conhece todos os genéricos, similares e seus efeitos colaterais. Pelo menos você terá vantagens do ponto de vista financeiro.

Acho que as mães sempre acabam aprendendo com a medicina da vida. São noites cuidando de febres, dores de garganta, ouvido, ou as tais viroses que ninguém sabe como chegam ou vão embora. Só mesmo as mães. A minha também é ótima em situações de risco ou tensão. Ela está sempre ali, serena, com sua mão firme e quente, pronta a passar a noite acordada numa cadeira desconfortável de hospital ou aos pés da nossa cama.

Quando meu filho nasceu, de cesariana, dividi o quarto com outra pessoa. Assim, ninguém da família podia me acompanhar à noite. Foi um dos momentos mais difíceis da minha vida. Ficar sozinha com aquele bebezinho indefeso que viria pro quarto sem manual de instruções era algo aterrorizante de imaginar.

Tentei disfarçar o pânico e meu marido logo foi embora, resignado. Já a minha mãe resistiu até o último momento. Deixou o quarto de madruga e cedo da manhã estava de volta. Meu pai disse rindo no outro dia que ela pensou em passar a noite sentada na recepção do hospital. Então percebi que só eu e ela sabíamos, naquele momento, o tamanho do meu medo. Coisas de mãe.

No ano passado meu pai teve um infarto. Foi um susto tremendo que já passou. O que ficou mesmo foi a lição de que eles começam a precisar mais de nós, os filhos. Minha mãe estava lá, ao lado dele. Firme como uma rocha. Mesmo assim comecei a ver alguns sinais de cansaço no rosto dela. É o ciclo da vida, sempre impiedoso, nos dizendo que o tempo vai continuar passando não importa o que a gente faça ou deixe de fazer.

Um comentário:

Advogadas Lanzimari Dolabela e Raquel Lauxen Valério disse...

Pô, Kicha. Sensacional! Adorei a linda surpresa do teu blog. Não tinha lido nada ainda e, confirmando aquilo que eu já sabia, teu texto é bárbaro. Parabéns.
Identificação total com a passagem do nascimento do J.P. Fecho os olhos e lembro de sensações muito semelhantes, muito intensas, com a minha mãe segurando, da mesma forma, a minha mão.
Muitos beijos pra ti, pra tua família "de médicos", que eu sempre vou guardar no coração. Sempre serão especiais na minha vida. Inesquecíveis, tu sabes...